Predadores

Deixei os dois em casa a aprontar o de-comer,
A colocar carinhosamente o alambel sobre a mesa
Com listras coloridas de branco e azul anil.
Era perto da boca do rio Nder, era pelo meio-dia.
Fui buscar lenha. Estava a recolher a madeira, desatento,
Quando saltou sobre minhas costas um cara fedorento,
Meio baixinho, pálido como um broto de fava nascendo.
Tentou me segurar. Me mordeu no ombro.
Eu esculhambei, girei de lado, agarrei pelo pescoço o ser fedido,
Apareceram mais cinco na praia, de sabres na mão,
Correndo em minha direção, corri, fugi, gritei,
Apareceram alguns amigos em minha salvação,
Mas os fedorentos sumiram para longe, em direção ao rio.
Voltei. Chegando em casa os dois já não estavam lá,
Nem o de-comer, nem o alambel de azul anil sobre a mesa.
Chorei. Me disseram que talvez hoje
Já estejam sendo arrastados para Argüim.

A Manilha e o Libambo – Alberto da Costa e Silva
Relação e Descripção de Guiné – André Álvares D’Almada
Rios de Guiné do Cabo-Verde – André Álvares D’Almada
Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné – Gomes Eannes de Azurara

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