Dizem os filósofos, Angola,
Que o mundo caminha às trombadas e empurrões.
Tromba o forte com o forte
Tromba o forte com o fraco dolorosamente,
Pois o fraco não pode se defender como convém.
Desses embates e escaramuças
Surge o futuro, dizem, impiedosamente.
Vivias com teus reinos e teu povo
Ora servindo o manicongo de M’Banza Congo,
Às vezes solitária, distante, nos planaltos de Benguela,
Ou surgindo de repente da mata, como os jagas, os imbangalas.
A rainha Temba matou sua filha no pilão
E fez dela uma pasta da carne infantil inocente,
Depois dessa pasta fez um emplastro
Para besuntar os seus guerreiros
E dar-lhes na guerra a proteção.
Outros dizem que foi a rainha Njinga.
Não vamos nos enlouquecer de horror ou ódio.
Nossos antepassados eram assim. Não há o que fazer.
Eles foram o passado, nós éramos o futuro e agora somos o
presente.
Os fedorentos desciam de seus navios, após meses sem tomar
banho,
Fingindo que queriam converter os negros para Cristo.
De armas na mão matavam e escravizavam,
Queriam na verdade a força de trabalho e os corpos negros
Para vender em sítios longínquos, em troca de ouro e prata.
De lá ninguém jamais regressava.
Dizem que remotamente eram os lubas os patriarcas,
Com os congolos e quilolos. Depois os cabungos lundas.
Então dizem que Kinguri veio de Lunda e Antino-Uene do Congo.
O Ngola surgiu no Dongo.
E Angola começou a mostrar a sua cara.
No rio Kwanza e em Benguela dizem que os imbangalas
Já não respeitavam os makotas,
Nem os kulembes, nem os kinguris, nem os sobas.
Obedeciam aos mavungas, matavam e escravizavam.
Os imbangalas eram a face fedorenta de Angola?
Somente eles? Só eles eram cruéis e impiedosos?
Tudo em nosso passado é fedor e crueldade.
Nós viemos dali, desse fedor, dizem os filósofos.
Não temos nenhum motivo para soberba ou vanglória.
A Manilha e o Libambo – Alberto da Costa e Silva
